Quinta-feira, Agosto 21, 2008 :::
As desventuras de um jovem foca
*Uma das piores coisas que se pode fazer com um colega jornalista que trabalha em redação é deixá-lo esperando uma resposta quando essa resposta é fundamental, imprescindível e protagonista da matéria que ele está fechando. Pior ainda é quando essa resposta é lacônica, tipo, “sim” ou “não” e jogam ladeira abaixo a espera que o cara fez a tarde toda por uma resposta digna e decente – além de deixar a gente muito puto, lógico. Ocorre muito de ter perguntas do tipo “Quais são as obras que vocês vão fazer no João Paulo segundo a partir da semana que vem?” e o assessor dizer:
* - “Aguarda um pouco, Jorge, porque o secretário ta numa reunião importante. Vou entrar lá e tentar falar com ele, certo? Espera dez minutinhos”.
* (É aí que a gente tem vontade de se enforcar)
* Depois de quinze minutinhos, enfim, porque somos todos brasileiros, a gente liga de novo:
* “E aí, fulano, o secretário?”
* - “Pô, ele ainda não está na reunião, mas eu consegui falar com ele rapidinho. Estou escrevendo uma nota oficial e te mando já já”.
* (Menos mal, vamos afrouxando a corda).
* Suponhamos que isso tenha sido por volta das 11h30. Dito isso, você se ocupa com outras coisas na redação: vai almoçar, ver um pouco dos telejornais do meio-dia, ler os matutinos que você não teve tempo, acompanhar alguns blogs e jornalísticos, ligar para algumas fontes em busca de notícias e fofocas e coisas do tipo. Tem dias que dá até para você sair, apurar outra matéria, escrevê-la e ficar esperando a resposta.
* Logicamente, você faz tudo isso olhando ansiosamente para o relógio. Aí dá uma e meia, duas e meia, três e meia... e você ficando vermelho, óbvio, porque se o cara já tivesse mandado a resposta você já teria escrito o texto e tava em casa tomando suco Ades.
* Aí, lá pelas cinco da tarde – depois de ligar outras trocentas vezes e amaldiçoar até o mais desprezível espermatozóide que o assessor fdp carrega no saco – ele manda uma nota assim:
* “A Secretaria tal informa que as obras no bairro tal vão começar apenas no mês que vem, assim que as chuvas terminarem na área indicada pela Defesa Civil. Os recursos, as obras e a empresa que fará as intervenções estão sendo decididas e um relatório de periculosidade da área está sendo elaborado. Estamos em busca da melhoria da qualidade de vida daquela população”, contou o secretário.
* (Você aperta a corda de novo).
* Putz!
* Sem obras, sem empresa, sem dinheiro. Relatório que ainda está sendo elaborado?
* Então você pega o que você escreveu, lê, vê que nada bate com o que a secretaria disse e joga no lixo. E sai às seis da tarde, depois de explicar pro seu editor que as obras vão começar só no mês que vem e, portanto, é melhor a matéria sair só mais perto da data.
* Como eu odeio os assessores lerdos! Vocês merecem o fogo do inferno, seus filhos da puta!
::: expelido por EDUARDO OLIVEIRA às 7:23 PM
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Terça-feira, Agosto 12, 2008 :::
Caso de amor e ódio
* O assunto da terça feira passada na redação do jornal foi, vejam só, um vídeo em que o Ronaldo Tiradentes, aquele que enche sua paciência todas as manhãs na CBN – “a rádio que só toca notícia” - aparece batendo boca com a secretária de Meio Ambiente, Luciana Valente, na sede da secretaria, lá no Aleixo. A coisa é meio brutal, porque a gritaria é tanta e você não consegue ouvir todo mundo direito (na verdade, a gente não ouve ninguém direito). É o Ronaldo gritando, a Luciana gritando e o assessor de imprensa dela (Yussef Abrahim, ótimo cara) filmando e falando alto também. Impressiona tanta descompostura em poucos mais de 4’30.
* O vídeo permite inúmeras reflexões mas o que eu mais gostei foi o fato de que não temos nem o antes nem o depois da confusão: do início ao fim da “película”, só aparecem eles gritando e se desrespeitando. O momento mais animadinho é quando a Luciana tenta dar uma resposta no microfone da rádio e o Ronaldo taca um tapão na mão dela, tirando o objeto da mão da secretária e impedindo Luciana de responder o que quer que ela estivesse respondendo. É só.
* Pelo menos foi isso que entendi, mas vejam o vídeo e tirem suas próprias conclusões.
* Após assistir ao curta-metragem – quem conhece o Yussef sabe de seu fascínio por cinema – fica com a indagação. Se a coisa é tão séria, ela não começa e termina ali, naquele videoclipe-reality show-baré. Fiquei me perguntando porque o Yussef filmou aquilo tudo. E com que intuito? Obviamente, a discussão não começa ali. Cadê a parte onde eles vão conversando devagar, começam com respostas atravessadas e depois partem para a gritaria? No vídeo, como já falei, é só gritos para lá e pra cá. A impressão que dá é que ali é o ápice de um relacionamento tortuoso, cheio de idas e vindas, traições, ciúmes, revelações inesperadas, bem coisa de novela.
* A segunda é que a singela cena do Ronaldo saindo da secretaria nem de longe (sem trocadilhos, macacada) representa o fim do bate-boca e do mal-estar. Não falta quem diga que o Ronaldo bate direto, e com força, na secretaria do Meio Ambiente, sabe Deus o porquê – a secretaria deve ter cortado algum jambeiro importante pra infância dele.
* A coisa toda, lógico, é desmoralizante para Ronaldo – que, definitivamente, teve uma postura que deve ser condenada por todos os jornalistas que se pretendam dignos deste nome – e meio assim assim para a Semma, que torna público um quiprocó de fundo de quintal. Lamentei o fato de que a sempre elegante e classuda Luciana Valente tenha, de fato, partido para o bate-boca (não precisava, não precisava, tsc tsc...).
UPDATE: Nesta segunda-feira, diz que os dois, Luciana e Ronaldo, estavam “de bem” nas ondas da CBN. Luciana “negou” que Ronaldo tivesse sido grosseiro e Ronaldo “negou” que uma árvore tivesse sido cortada indevidamente ao lado da emissora. O Cordeiro também negou que fosse criminoso, a Madonna também negou que tivesse um caso com um jogador de beisebol, o Vicente Cruz também negou, o Negão nega até hoje...
* O vídeo é fácil fácil de encontrar no Youtube: é só digitar “Ronaldo Tiradentes” “Luciana Valente”, “CBN Manaus”...
::: expelido por EDUARDO OLIVEIRA às 10:54 PM
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Quinta-feira, Junho 19, 2008 :::
Uma tarde em Paris
Chegamos hoje em Parintins, para iniciar a cobertura com o caderno especial de A Crítica. Nos puseram num horário filho da puta (viajar às 6h30 da manhã, vê se pode!), mas a viagem foi tranqüila e bem rápida – é menos de uma hora de Manaus para cá.
O que salvou foi o clima de confraternização entre a equipe. Hoje chegaram sete pessoas e amanhã vem o resto. Ao que tudo indica, o clima de trabalho vai ser meio devagar até sábado, mas no domingo a coisa muda de figura e o Festival começa “pra valer”, por assim dizer. Mas até agora temos falado muita besteira. O Júlio Ventilari é muito engraçado e fala muita merda, do mais baixo nível. Vamos combinar: é difícil não ficar bem humorado falando bobagem comendo uma matrinchã debaixo de uma árvore na beira do Rio Amazonas sob uma tarde ensolarada, né?
Celso passou o dia montando a redação – ligando computadores, estabelecendo conexões de rede, verificando a velocidade da conexão com a Internet... mas tudo deve ficar pronto nesta sexta de manhã. Tem uma janela enorme onde bate um sol lascado e o ar condicionado dá mostras de que não vai segurar a onda quando o corre-corre começar. Mas enfim, o trabalho está rolando. De manhãzinha, fizemos um tour pela cidade, conhecendo os bares, boates e inferninhos parintinenses, após deixar as malas na casa onde ficaremos. Até segunda ordem, os três quartos ficaram divididos assim: os veados, os machos e as meninas. Justo, né? Ainda tem a sala e a área externa que podem ser utilizadas por quem se amarra.
Mas, na boa, o mais duro não é o trabalho, que promete ser ótimo. É ficar doze dias longe da minha princesinha e quase um mês sem ver a Paula. Nunca ficamos tanto tempo sem nos ver e isso me aperta o coração, admito. Mas enfim, não serão as primeiras nem últimas viagens que faremos separados, espero. Então vamos tocando a bola pra frente.
Até agora, tenho duas matérias: destrinchar a cobertura que a Band vai fazer dos bois (tou pagando pra ver se vai prestar, tenho que admitir!) e falar sobre a palminha, um instrumento utilizado pela batucadas dos bois que ninguém conhece – nem eu, pra ser bem sincero. Foi meu editor que cantou essa pedra. É que a palminha são duas pequenas ripas de madeira que o povo toca batendo palmas mesmo. Parece tão sem graça que só os velhinhos do boi que tocam essa parada. Mas ainda não falei com ninguém, então posso estar especulando à esmo. Mas que parece ser uó, isso parece, né?
Até agora só pensei em trabalho. Quando a noite chegar, as festas pipocarem, os papos rolarem... sabe Deus, né? Fui.
::: expelido por EDUARDO OLIVEIRA às 4:34 PM
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Quarta-feira, Maio 28, 2008 :::
Flagrante de uma redação:
Via celular:
- Wander?
- É.
- Acabei de fazer uma grande cagada.
- Qual foi?
- Esqueci meu bloquinho de anotações aí no jornal.
- O que que tem?
- Acontece que é lá que está o endereço do local onde vou fazer a entrevista.
- Que entrevista?
- Não muda de assunto. Tou dentro do táxi e não sei o endereço do lugar onde estou indo. Pega lá meu bloquinho e me diz o endereço, rápido.
- Tá. Onde tá teu caderno?
- Não é caderno, é bloquinho. Tá em cima da mesa da Karina ou do Rogério, vê aí.
- Ok. Espera um pouco.
(...)
- Tá aqui, já achei. Como faço?
- Vai na última folha escrita antes das páginas brancas, por favor.
- Hum...
- Que foi?
- Teu caderno tá dividido em duas partes. Tem uma escrita com rabiscos de caneta vermelha e várias páginas brancas. E depois tem mais umas páginas escritas de caneta preta e mais páginas brancas.
- Certo. Procura pelo nome do Fernando Paiva nas nas últimas páginas escritas com caneta preta.
- Peraí. Eita, tá difícil. Não dá pra entender tua letra direito. Peraí que eu...
(a ligação cai)
- Wander.
- Oi.
- A ligação caiu.
- Sei. Percebi. Tá aqui o nome do Fernando Paiva.
- Porra, tu é foda. Pega à direita, por favor, meu tio.
- Que é?
- Nada. Tô desguiando o taxista. Não sei para onde estou indo, lembra?
- Verdade. Anota aí.
- Diz.
- rua Visconde de Porto Alegre, 42. Próximo da Igreja de São José Operário, na Praça 14.
- Porra Wander, tu é foda. Valeu mesmo.
- Beleza. Qual é a matéria que tu vai fazer mesmo?
- É sobre assédio moral. Um negócio que acontece o tempo todo aí na redação.
- É verdade.
- Tá bom então, tchau.
- Tchau.
(desliga o telefone)
::: expelido por EDUARDO OLIVEIRA às 6:49 PM
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Quarta-feira, Maio 14, 2008 :::
* Hoje eu fui fazer uma matéria no 6º Distrito Integrado de Polícia (DIP). O nosso chefe de reportagem disse que uma quadrilha de seqüestradores havia sido presa por lá e eu poderia fazer uma matéria sobre o assunto. Cabe aqui dizer que há muito tempo deixei de ter frescuras com relação a cobertura de policial, então fui tranqüilo para lá. Na boa, acho que fazer matérias policiais é algo tão comum como qualquer outro assunto – lógico que, permanecendo na área por muito tempo, você vai acabar tendo que lidar com tiras corruptos, traficantes, vendo cadáveres e coisas do tipo. Mas isso não tem rolado comigo então nem me estresso.
* Chegando lá, saquei a verdadeira história: a “vítima” – um galalau, como diria meu pai, de 21 anos, alto e corpulento, não era bem um seqüestrado – mas sim um traficante que tinha uma dívida com outro trafica. Em busca de ajuda, senão levava bala, ele chamou o papai. Papai, muito esperto, comprando a história de que o filho havia sido seqüestrado, chamou a polícia, que “vendeu” a história como o desmantelamento de uma “perigosa quadrilha de traficantes”, trabalho integrado, tocaia e o escambau. Lembrei até do Aqui e Agora, imagina... Resultado: os cinco (!) “seqüestradores” foram presos.
* O trafica que estava devendo praticamente deu um duplo calote: não pagou a dívida – cerca de R$ 7 mil, segundo a boca pequena – e ainda fez com que seus cobradores fossem em cana. Esperto, não? O cara até chorou de mentira na minha frente, acreditam? Fiquei com aquela cara insossa de “puta merda”...
* Os acusados falaram muita coisa e cada um contou praticamente uma história diferente. Teve quem dissesse que era cliente do “seqüestrado”, outro que estava fechando o bar para ir embora pra casa... só lero-lero. Um chegou a trabalhar na Câmara Municipal. Eu fiquei com muita pena da menina – eram quatro caras e uma moça presos - que foi presa com o bando: conversando, percebi que ela era quem mais falava a verdade e a que mais estava preocupada em sair dali o mais rápido possível. Ela contou que era garota de programa e receberia 100 pilas só para acompanhar os caras durante toda a noite (ou seja, acho que ia sair no lucro e se deu mal...). Fiquei solidarizado mesmo. E ainda pedia para que eu chamasse um xará que poderia limpar a barra dela: “Chama o policial Jorge, por favor, que tá lá fora? Ele é da Civil, e não da Militar certo? Ele é meu amigo e pode me dar uma força. Mas não esquece, tá?”
* Fiquei meio chateado porque esses traficas são todos gaiatos: mentem horrores, se fingem de coitados e ainda tiveram a audácia de pedir que eu não colocasse o nome deles na matéria, pode? É porque eu sou pai de família, trabalho numa drogaria, minha mãe não sabe... Porra, vão se foder! Cagou e tá com medo que limpem, é? Eu fiquei puto com a história toda e tasquei o nome de todo mundo na matéria e pronto.
* Pensei por alguns minutos que se um dia eles lessem a matéria e ficassem mordidos poderiam mandar alguns traficas mais orelhas pra me seguir e ficar de olho em mim. De repente meter um balasso na minha perna ou me dar um “recado”, entende? Mas, sinceramente, por hora nem me importo com isso.
::: expelido por EDUARDO OLIVEIRA às 10:40 PM
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Terça-feira, Abril 15, 2008 :::
Zanzando pela Net, vi essas capas antigas da Mad, numa seleção feita pela Vanity Fair norte-americana... Adorei essas capas!
::: expelido por EDUARDO OLIVEIRA às 10:06 PM
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Quarta-feira, Abril 02, 2008 :::
"Olha só quem vem aí
Antes de chagar o dia
Pensamento vem e traz
Quem partiu e não devia
Quem te disse que era hora de partir
Hora boa é sempre hora de voltar
De partir é sempre hora vem pra cá
Já perdi noção da hora de esperar"
(Alvinho e Domenico Lancelotti)
Fino Coletivo, 'Boa Hora'
* Acho que uma das coisas mais legais que a Internet trouxe para o nosso cotidiano foi, de fato, a democratização da comunicação. Digo isso porque, como jornalista, fico extremamente chateado quando vejo algumas idéias super-escrotas ganharem as páginas e alguns preciosos minutos nos televisores, fazendo as vezes de informação.
* Me refiro a algumas situações específicas, como aquela que ocorreu quando a Veja deu uma capa falando dos quarenta anos da morte de Che Guevara. O caso provocou um intenso debate na net, principalmente entre comunicadores que se interessam por essas questões e entre curiosos que têm noção da merda que dá colocar qualquer bobagem na capa de jornal – ou revista.
* Há uns meses, comemorando os 40 anos da morte do ícone cubano, a Veja colocou a figura do cara em sua capa e publicou uma reportagem “desfazendo o mito” que há em torno dele.
* Acontece que a tal reportagem nada mais era do que a Veja baixando o cacete no cara e afirmando que ele não era tão santo quanto se dizia. A título de esclarecimento, a reportagem não trouxe nada de novo além daquilo que já se sabia e só tinha depoimentos de gente esculachando o rapaz.
* No momento da publicação, a reação – principalmente entre jornalistas – foi péssima. Ficou na cara que o objetivo da revista era detonar o coitado (que nem depois de morto tem descanso) e que um dos pilares do jornalismo – ouvir os dois lados de toda e qualquer questão – foi jogado pela janela sem dó nem piedade.
* A situação ficou mais engraçada quando o repórter norte-americano Jon Lee Anderson, o autor daquela que é considerada a mais completa biografia já escrita sobre Che, divulgou um e-mail onde dizia que o autor da reportagem, o jornalista Diogo Schelp, teria o procurado para falar sobre o assunto, mas não tinha conseguido. Anderson dizia ainda que odiou a reportagem e dava graças a Deus por não ter falado com o repórter.
PS: Para você ter uma idéia, Anderson também foi o único jornalista norte-americano que cobriu a guerra do Iraque sem lamber as botas dos soldados ianques. Ele andou pra lá e pra cá no meio dos tiroteios sozinho. No meio jornalístico, ele tido como um “especialista em cobertura de conflitos armados”, para ser bem reducionista.
* Aí a coisa descambou quando Schelp divulgou um e-mail respondendo a Anderson . O que até então eram apenas conjecturas virou briga de comadres. Muito em parte porque os e-mails circularam em muitas listas de discussão e blogs de jornalistas alheios – como do Pedro Dória. Aí pipocaram teorias pró e contra a reportagem, chamando Diogo de picareta e por aí vai.
* Acho muito legal o fato de que uma capa da Veja seja questionada assim, com tanta firmeza e sem muito rodeios. Como técnico em comunicação, vejo que a sociedade como um todo só ganha quando uma história dessa de “bastidores”, vem à tona.
* A Veja já tinha feito algo parecido quando o governo federal tentou emplacar o Conselho Federal de Jornalismo, batendo sem dó nesta questão, até sangrar. A imparcialidade, a neutralidade, o outro lado da questão? Aonde?
* Além disso, esta parada também acaba sendo um reflexo do nosso tempo: não é só o produto que vende (a revista), mas o enredo por trás também (o famoso making of. No caso, a apuração da reportagem, quem deu depoimento, quem ficou de fora e coisas assim). No fim das contas, não estamos mesmo repercutindo a Veja e sua matéria de capa, de qualquer jeito?
* Até mesmo no jornal onde trabalho, A Crítica, tem coisa que ganha a capa sem merecer, mas, enfim, dia ruim tem pra todo mundo, né não?
* Como disse antes, a Internet te permite discutir essas coisas e sempre encontrar algo que vá te dar moral. Se você concorda ou discorda de qualquer coisa, é muito fácil, com os Orkuts, Facebooks, MSN da vida, achar que concorde e lhe dê apoio. Assim a gente discute a mídia, as coisas dela, as coisas que ela fala e amadurece enquanto cidadãos e sociedade...
* A propósito, eu bem que tentei, mas ainda não consegui ler a tal matéria. Mas bem, conhecendo a Veja... abaixo, segue um dos e-mails que fomentaram o bate boca:
“Caro Diogo,
Fiquei intrigado quando você não me procurou após eu responder seu e-mail. Aí me passaram sua reportagem em Veja, que foi a mais parcial análise de uma figura política contemporânea que li em muito tempo. Foi justamente este tipo de reportagem hipereditorializada, ou uma hagiografia ou — como é o seu caso — uma demonização, que me fizeram escrever a biografia de Che. Tentei por pele e osso na figura supermitificada de Che para compreender que tipo de pessoa ele foi. O que você escreveu foi um texto opinativo camuflado de jornalismo imparcial, coisa que evidentemente não é.
Jornalismo honesto, pelos meus critérios, envolve fontes variadas e perspectivas múltiplas, uma tentativa de compreender a pessoa sobre quem se escreve no contexto em que viveu com o objetivo de educar seus leitores com ao menos um esforço de objetividade. O que você fez com Che é o equivalente a escrever sobre George W. Bush utilizando apenas o que lhe disseram Hugo Chávez e Mahmoud Ahmadinejad para sustentar seu ponto de vista.
No fim das contas, estou feliz que você não tenha me entrevistado. Eu teria falado em boa-fé imaginando, equivocadamente, que você se tratava de um jornalista sério, um companheiro de profissão honesto. Ao presumir isto, eu estaria errado. Esteja à vontade para publicar esta carta em Veja, se for seu desejo.
Cordialmente,
Jon Lee Anderson.”
::: expelido por EDUARDO OLIVEIRA às 10:50 PM
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Quinta-feira, Março 06, 2008 :::
“No lugar do sonho eu tive um sono pesado
Acordei e vi que ontem se despedia de amanhã
Continua tudo escuro desde a hora que eu dormi”
(China)
China, ‘Durmo Acordo’
* Dias desses tava lembrando de como nunca mais teve um show bom em Manaus.
* O último bom que eu fui – mas bom show mesmo, desses de dançar a apresentação toda e depois sair correndo atrás do cd – foi o do meu xará Seu Jorge, ano passado, no fim de outubro. Na hora do show, tinha um povo da equipe dele vendendo o álbum novo do cara por R$ 10. Como ninguém tinha, por assim dizer, “se preparado”, eu e meus irmãos catamos moeda para comprar o álbum. Lembro que minha irmã foi quem mais se empolgou, deu uns R$ 6. Eu entrei com uns R$ 2 e poucos e o Rafa foi quem menos colaborou.
* A Juli às vezes surpreende e desta vez ela acertou: o cd é ótimo, muito bacana. Hoje ele tá na Bemol de vinte e três e paus, ou seja, nem vale mais a pena. Tem até uma música na novela, chama “Trabalhador”, mas tenho que dizer: é a mais escrota do disco.
* Puxando assim pela memória, só lembro do show do Fatboy Slim, que rolou no início do ano. Mas eu não fui por conta do preço do ingresso, que tava meio salgado – uns R$ 140, acho. Fora isso, teve também aquele horror de artistas de axé music de quinta, que aportam por aqui todos os anos. Até que eu tinha me empolgado para ver o Fatboy, mas rapidinho essa idéia foi embora.
* Lógico que eu não me sinto em condição nenhuma de esnobar o seu Norman Cook, mas venhamos e convenhamos: o Fatboy Slim tem uma casa na Bahia, outra em Angra dos Reis e tem uns bons cinco anos que ele faz a festa no Brasil na época do Carnaval, tipo janeiro e fevereiro, excursionando em várias cidades (principalmente o Nordeste). Digamos que (aham!, pigarreando) a M1 Eventos não “inventou a roda” quando o trouxe para cá. Foi só uma esticada de perna, sacam?
* Mas o que pega é que o cara não manda mais nada no mundo da música eletrônica, crazy people. Ele já surfou a onda dele, entendeu? Agora é só época de coletânea, ao vivo, acústico, “Fala Aí!” e coisas do tipo. Não adianta não: tudo o que ele fizer agora será menos que “the funk soul brother”, sacaram?
* Já ouviu falar do Justice? do Simian Mobile Disco? Do Gui Boratto? Esses sim, estão mandando ver e jogando a música eletrônica pra frente. O Fatboy Slim está fazendo mais ou menos a mesma coisa que os Scorpions fizeram ano passado. Quando eles chegam num momento da carreira em que perderam totalmente a relevância artística para o mundo da música, aí eles vêm para Manaus. O primeiro show deles no Brasil, pra vocês terem uma idéia, foi em 1985, quando eles foram uma das grandes atrações do primeiro Rock in Rio, que tinha ainda o Queen, a Nina Hagen e o Iron Maiden.
* Ou seja, depois de vinte e dois anos de carreira (!!!) eles resolveram pensar na Amazônia, no Meio Ambiente e na preservação dos recursos naturais do planeta. Pelo menos assim disse o vocalista Klaus Meine na coletiva que eles fizeram quando chegaram em Manaus. Alguém aí acreditou?
* Não lembro de ninguém fazer como o White Stripes que, no momento em que surfava a crista da onda, em 2005, deu um jeitinho de aparecer por aqui em altíssimo estilo. Quem estava no Teatro Amazonas assistindo àquele show sabe do que estou falando.
* Até agora, o que tem marcado por aí é Djavan, Charlie Brown Jr., Mv Bill e uns metais tipo Helloween e Nightwish – que vão trazer o que resta dessas bandas por aqui ao longo do ano. Viu como estamos bem?
* Ô cidadezinha escrota!
::: expelido por EDUARDO OLIVEIRA às 11:20 PM
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Domingo, Janeiro 20, 2008 :::
"Se acaso estás distante de mim
Só penso em te buscar
O tempo fica horas sem fim
A me martirizar
A minha sinfonia de amor
Sofre uma pausa de dor
A natureza fica parada
Só penso em ti, mais nada
Meu sofrimento na tua ausência
Faz de um segundo horas mortais
Minha alegria esquece as horas
Se junto a mim tu estás"
(Marino Pinto E Mario Rossi)
Nina Becker, 'Distante'
* Meninos, alguém foi pro Fatboy Slim? Eu bem que queria, mas o preço do ingresso não deixou...
* O grande problema de ter uma banda com o irmão é que você se sente à vontade pra falar um monte de coisas que passam pela sua cabeça – e que, naturalmente, não correspondem nem um pouco àquilo que ele pensa. Resultado: brigas, discussões e muita dor de cabeça.
* Em alguns momentos, lembro e entendo perfeitamente o que ocorre com os Gallagher, que já trocaram até ameaças de morte pela mídia. Porque a gente não pode ser que nem os irmãos do Pantera, o Vinnie Paul e o (falecido, que Deus o tenha!) Dimebag Darrell, que passaram vinte anos tocando na mesma banda, depois fundaram outra e continuaram juntos? Olha, os Bee Gees eram três também, até um morrer, mas não assassinado. O Kings of Leon são três irmãos e um primo que, até onde se sabe, também se dão bem!
* Pô, até a Sandy e o Júnior passaram dezessete anos tocando juntos. E foi aqueeela comoção para se separaram, quando ninguém mais acreditava nisso.
* Agora que eu lembrei do Black Crowes, uma das minhas bandas preferidas, que também tem irmãos em sua formação.
* Uma das grandes discussões que tenho com meu irmão diz respeito ao que é possível fazer, artisticamente falando, em Manaus.
* Eu acho que, após um tempo relativamente curto, se a banda souber trabalhar bem, ela já passou e tocou por todos os lugares e para todos os públicos da cidade. Ela já conhece todo mundo e já fez o que tinha que fazer, em termos de crescimento, abrangência de público, de participar de programas, sair na mídia e coisas assim.
* Uma hora, então, chega a hora de tomar a decisão mais óbvia: arrumar as malas e procurar abrigo em outros centros, onde há mais público e o dinheiro circula com mais facilidade.
* Meu irmão, por outro lado, acha que é dever das pessoas que têm esse esclarecimento “fincar as raízes” aqui, tentando fazer com que as pessoas dêem vida à uma cultura que possibilite aos artistas viver – bem - de sua arte na “Paris dos Trópicos”.
* Já fui bem empolgadinho com a banda que tive até o ano passado, mas hoje estou extremamente low profile – até porque depois que você casa, tem filhos e começa a construir uma carreira profissional em outras paragens, o que é bem diferente da realidade de muita bandinha por aí – você passar a ver as coisas sob outra perspectiva. Então, se antes essa discordância dava margem para muuitas brigas, hoje a gente convive bem resolvidos com as nossas diferenças.
* Mas o que eu sempre dizia para ele é que eu não achava nem um pouco legal virar tipo um Cileno ou um Zezinho Corrêa, que dependem da boa vontade das secretarias de cultura para garantir uns trocados. E eles, como vocês já devem ter reparado, têm lugar cativo em todas as datas comemorativas do calendário cultural da cidade – ora se apresentam na festa do coelhinho da páscoa, na chegada do papai noel, na peça teatral do Dia das Mães...
* Fora o fato de que, a cada vez músicas que eles cantam, cinco são do Djavan, da Ana Carolina, do Chico Buarque, do Caetano... (Zzzzzz)
* Márcio Souza já bem disse, em “Expressão Amazonense”, que no Amazonas há uma cultura de inferiorização do artista. Ele é visto como o louco, o extravagante, que pode ficar perambulando por aqui e por ali, desde que não incomode os poderosos.
* Alguém já leu alguma definição melhor?
* Acho que, enfim, temos que educar esse povo daqui pra consumir pelo menos com algum critério. Fazer eles largarem essas micaretas de todo o fim de semana para começar a curtir alguma coisa mais substancial, né? Pouca gente reclama de dar R$ 150 pro Norman Cook, mas acha ruim dar R$ 10 pra uma Márcia Siqueira, pra uma Fátima Silva ou pra uma Zona Tribal.
* E assim vamos levando...
::: expelido por EDUARDO OLIVEIRA às 8:46 PM
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Sábado, Janeiro 05, 2008 :::
“Sintonize o seu rádio
procure em alguma estação
se eu entrar nos seus ouvidos
acelero seu coração.
Mas não esqueça de mim
agora eu corro com o vento
você não pode me ver
me guarde no pensamento.
Minha voz vai se espalhar no ar
cada verso que eu cantar
os falantes te lembrarão
minha voz é canção que não morre no ar.
Nunca mais vou te deixar
pois agora sou uma canção”
(China/ Bruno Ximarú)
China, ‘Canção que não morre no ar’
* Recentemente soube que uma grande amiga da época da faculdade ficou grávida. Fiquei feliz à beça, porque hoje sei o bem que faz ter uma criança sua. O que me deixou triste e meio chateado foi o fato de que alguns amigos, do mesmo círculo de relacionamento, souberam da notícia e fizeram aquela cara de “mais um pro clube dos pais e mães”, tratando o assunto como se fosse a grande tragédia da vida dos ex-universitários.
* Faço o possível para me dar muito bem com pessoas de opiniões diferentes da minha, mas não consigo ficar indiferente a uma reação deste tipo. Pessoas assim tratam o nascimento de uma criança, que é uma das notícias mais felizes e bacanas que alguém pode receber, como um peso, um entrave ou um empecilho. Digo isso pela reação dos colegas e pela própria reação que encontrei quando disse, em 2005, que a minha namorada estava grávida.
* Há pessoas que realmente curtem a notícia e te ajudam a superar este momento, que dá uma doida nos planos e na condição psicológica de muita gente. Mas os olhares e comentários de amigos e familiares, em alguns momentos, são realmente ofensivos, constrangedores e cruéis. Quando você divulga a notícia, é como se todo um “mundo de oportunidades” ruísse automaticamente, quando uma série de coisas que você poderia fazer ou ter feito vai para o ralo quando chega a confirmação de uma gravidez. Na verdade, olhando com algum distanciamento, é bem isso mesmo que acontece quando você se torna pai ou mãe.
* Admito que devo fazer meu mea culpa. Falei inúmeras vezes que não teria filhos cedo, que isso seria burrice, que não queria isso pra mim, entre outras coisas. Inclusive, sou a favor da descriminalização do aborto e penso que é uma estupidez as mulheres não terem o direito de decidir a respeito da possível interrupção de uma gravidez – no meu entendimento, a mulher, assim como o homem, é soberano em relação ao seu corpo: pode fumar, cheirar, abortar, tatuar e o caralho, desde que observe regras mínimas de convivência social e não encha o saco de ninguém.
* Mas eu prefiro pensar que não é um “mundo de oportunidades” que cai, e sim um castelo de cartas de baralho que sucumbe ao mais fraco dos assopros.
* Digo isso porque ter filhos é uma experiência e tanto. Pra começo de conversa, você não larga as coisas que você gosta, não deixa de fazer o que quer nem tem que abrir mão de coisa alguma. Lógico, alguma renúncia é necessária, mas nada que seja dramático ou deixe sua vida sem sentido. Alguns planos – a maioria deles, na verdade – tem que ser adiados, e outros voltam a ser incorporados a seu dia-a-dia à medida que a criança vai crescendo e começando a interagir com as coisas e pessoas.
* Obviamente, digo isso de uma perspectiva paterna: uma mãe com certeza não concordaria com o que estou dizendo.
* Ter um filho te ajuda a colocar as coisas em seu devido lugar e te ajudam a perceber o que é importante ou não é. Quando ouço pessoas falando do concurso público, da novela das oito, da vida do vizinho, da pós-graduação que é chata, do livro que estão lendo, e do carro que vão comprar, como se tudo isso fosse a coisa mais indispensável dessa vida, penso comigo: vão ter filhos, caralho!
* Não porque haja algum sentimento de inveja ou ressentimento aqui (será?), mas sim porque essas coisas não são, de modo algum, as coisas mais indispensáveis desta vida. Você passa a se preocupar com o futuro – seu e o da criança, com as coisas que faz, que fala, e descobre um tipo de afeição que não tem comparativos com nada do que você já sentiu antes. Mas não tem mesmo. O Ismael já disse que, quando os filhos nascem, a gente reaprende a rezar. Isso é a mais pura verdade.
* Ter filho é uma experiência ímpar, muito parecido com aquelas outras que são verdadeiros marcos da juventude alheia: aprender a nadar, aprender a ler, a andar de bicicleta, foder, tomar o primeiro porre... depois que você passa por isso uma única vez, você passar a ter mais clareza do que é a vida de fato e se pergunta até como era viver sem saber ou fazer essas coisas todas. Hoje penso: como seria minha vida sem a Beatriz? Com certeza, muito mais pobre e medíocre do que é hoje. Não porque eu seja rico e intelectual, mas porque a paternidade – ou maternidade, dependendo do caso - mexe com sua alma de um modo irreversível.
* Acho que tudo isso é, na verdade, um traço de uma das características mais perversas do capitalismo: o individualismo exacerbado. Hoje em dia, o que conta é você trabalhar, ser bem sucedido, viajar, ler, assistir filmes, ir a festas, e tudo o mais. Ninguém fala, por exemplo, do prazer que é dormir junto com sua filha e sentir o cheirinho gostoso do cangote dela. Ou passar remédio na criança. Ou ver um filme, infantil mesmo, desenho animado. Ou vê-la sorrir e me chamar quando chega do trabalho. Disso ninguém fala.
* E eu realmente acho que ter filhos é uma das experiências mais legais às quais alguém pode se submeter. Ela enriquece a gente, nos dá fôlego para diversas coisas e te deixam mais próximo do que realmente é a essência do ser humano. Ver seu filho crescendo – e olha que minha pequena tem menos de dois anos, ou seja, ainda vou aprender muito nessa área – deve ser o mais próximo possível que alguém chega de Deus ou qualquer outro tipo de entidade religiosa que você acredita que opere neste plano.
* Por isso, reitero meu conselho: vão ter filhos, caralho!
::: expelido por EDUARDO OLIVEIRA às 1:55 PM
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