"Todo mundo que ser
o último romântico
Eu só quero alguém
que diga sim
Todo mundo acredita
nas mesmas mentiras
Porque, pra variar
você não acredita em mim?"
(Alvin L.)
Sex Beatles, "Entrar em Alguém"
* E se foi mais um Carnaval.
* O Carnaval, admitamos, é o período das vulgaridades sem desculpas, das bizarrices feitas sob confetes e das mascaradas e inconfessáveis luxúrias.
* O Carnaval nada mais é que a grande desculpa do brasileiro - a justificativa que ele precisa para não ser levado à sério, para não trabalhar tanto, para embasar seus excessos, para perder o controle de uma forma aceitável, para começar o ano mais tarde, para negar as satisfações, para mandar os tabus para longe e para subverter a ordem que ele mesmo prega e vivencia.
* Como nenhuma outra festa, o Carnaval brasileiro consegue unir indivíduos diferentes em torno de uma filosofia só - a celebração do hedonismo, puro e simples.
* Folclorices, admitamos novamente, só interessam a quem está diretamente envolvido - o Carnaval é visto, aqui e no estrangeiro, como a comemoração da orgia, onde a celebração do corpo (e as vontades dele) são os detalhes mais significativos e interessantes da festa.
* Mais aí chega a Quarta-Feira de cinzas e tudo começa novamente - as vulgaridades passam para baixo do tapete, as bizarrices voltam para o fundo do armário e não se fala das luxúrias (ah, as luxúrias...)
* E aí voltamos para o escritório.
EDUARDO OLIVEIRA [8:22 PM]
"Você cansou no meio da dança
Você mentiu pras suas crianças"
(Olívia /André Namur/Paulo Preto)
Olívia, "Você dançou"
* "Graças à..." e "Apesar de..."
* Devemos reconhecer que somos falhos.
* Contudo, na atual sociedade em que vivemos, individualista, egocêntrica e norteada pelos valores do indivíduo, há uma conjunção de fatores que tenta nos fazer acreditar nas características que nos tornam especiais.
* Somos promovidos 'graças ao' nosso talento, conseguimos conquistá-la 'graças à' nossa lábia, obtivemos aquele benefício 'graças à' nossa esperteza, e assim vai...
* Acho que essa percepção é mantida de forma velada por muita gente - e reforçada pela mídia. O show que é o espaço dos meios de comunicação precisa de ídolos, de pessoas acima da média, de semideuses para manter o circo que criamos e alimentamos. Para estabalecer nosso círculo de relações sociais, também necessitamos de parâmetros, de referências - e assim procuramos o tipo de pessoas que mais nos convém: os mais inteligentes, os mais esforçados, os mais revoltados, os mais bonitos...
* Porém, acredito que essas referências nem sempre se dão por méritos próprios, e sim resultam de lances de sorte- talvez o velho ditado "a pessoa certa na hora certa" tenha a sua razão. No fundo no fundo, somos todos iguais - e comecei a imaginar que as coisas não acontecem 'graças à' e sim, 'apesar de'.
* Assim, podemos inverter as frases citadas anteriormente - somos promovidos 'apesar de' haver alguém mais bem preparado, conseguimos conquistá-la 'apesar do' objeto da paixão dela ser outro, obtivemos aquele benefício 'apesar de' gente mais capacitada merecê-lo...
* Temos que ter bastante atenção e sagacidade para perceber que não somos tão especiais quanto às vezes querem nos fazer acreditar. E que, apesar de um lance de sorte aqui e ali, não somos tão melhores quanto qualquer outro indivíduo.
* Podemos fazer esse tipo de reflexão não "graças à" nossa inteligência - mas "apesar de" sermos rasos e superficiais, na maior parte do tempo.
* Sugiro até um exercício -com certeza, nossa percepção das coisas e das pessoas vai mudar, se toda vez que ouvirmos um "graças à" imaginarmos o "apesar de" daquela situação.
* Não custa tentar, né?
EDUARDO OLIVEIRA [2:18 PM]
"Do you really think
That love is gonna save the world?
Well, I don't think so
I just don't think so
Do you really think
That love is gonna save your soul?
Well, I sure hope so
I really really hope so"
(Svensson/ Persson)
The Cardigans, "Do you believe"
* Vamos falar de preconceito.
* Vamos dizer que você não sai pra balada faz tempo. Mas aí, um dia, surge um convite pra uma festa legal. A festa parece ser interessante, as atrações idem, a turma ibidem e há dinheiro sobrando pra ir, beber, voltar e dormir sossegado. Você se empolga.
* Chega o dia da festa. Você passa o dia pensando em qual dos seus esquemas vai aparecer por lá, pensa em quem descartar, com quem ficar, talvez ligar praquela que há tempos não dá as caras... a única certeza é que a festa vai ser legal -a essa altura do campeonato, você já tem a certeza.
PS: Antes de ir, você faz questão de se produzir de verdade- põe roupa nova, penteia até os mais rebeldes dos fios de cabelo, capricha na lavagem do tênis, não esquece o sorriso colgate e passa perfume.
* Chegando lá, todas as suas favoráveis previsões se confirmam: a festa tá ótima, só tem gente boa, o som tá excelente e tem umas duas ou três possíveis moças- com as quais você curtiria alguns momentos a sós tranquilo, sem problema algum.
* Mais eis que, você não sabe de onde, surge uma rapariga muito bonita que te rouba a atenção. Ela tem tudo: os cabelos, o olhar, o sorriso... e um papo pra lá de convincente. Rapidamente, as duas ou três de antes são descartadas, já tendo em vista a mais nova especiaria que você conheceu. Ela tem um olhar profundo, que realmente mexeu com você.
* Algumas palavras são soltas no ar - mais para fazer o social do que por vontade mesmo. Numa hora dessas, a intenção de ambos já é outra, bem menos inocente e muito mais adulta.
* Num lugar mais discreto, as palavras somem e as atitudes surgem, pulsantes. Não há voz, só a vontade. O beijo dela, o cheiro dela, as mãos dela, a pele dela... é questão de tempo - a intenção adulta está ali, firme, forte, e reclama sua parte. Você pede uma pausa para ir ao banheiro.
* Quando você está voltando para os braços dela, um amigo pergunta onde você estava. Parceiro como ele sempre foi, você não vê problema algum em relatar tudo a ele- ela, o beijo dela, o toque dela. Você é só elogios. Seu amigo faz uma cara de desapontamento e tristeza. Ela pede pra você não se empolgar.
* Ele demora, encontra dificuldades para falar. Enrola, enrola, você perde a paciência e vocês começam a discutir. Ele pede a você que não se anime muito e avisa: aquela mulher que realmente te fisgou é soropositiva. Ele pede pra você ir com calma e se segurar.
* Vamos falar de preconceito, então.
EDUARDO OLIVEIRA [7:29 PM]