"Vem aí um baile movido a novas fontes de energia
Chacina, política e mídia
Bem perto da casa onde que vivia
Bem perto da casa que eu vivia..."
(Marcelo Yuka/ Falcão)
Daniela Mercury, "Eletro-Doméstico"
* Dias desses assisti Animatrix.
* Gostei bastante do que vi. Em especial, dos episódios em que um garoto se joga da janela da escola para não ser pego pelas máquinas ("A história de um garoto"), o do atleta negro que bate o recorde mundial e "desperta" (chamado apropriadamente "Recorde Mundial") e o das crianças que descobrem uma casa onde a Matrix é falha.
* Contudo, a parte que mais me chamou atenção foram os comentários dos criadores, os detalhes de produção e essas coisas assim.
* Mais interessante ainda, foi ver que a "cultura ocidental" (que talvez já nem possa ser chamada assim) comprovou, de fato, seu colapso.
* O trunfo de Matrix (após três filmes, nove episódios de anime e milhões de dólares) foi confirmar teorias que já andam na cabeça de uns caras por aí desde meados dos anos 90.
* A cultura ocidental entrou em colapso. Atrofiou, secou a fonte, perdeu a graça. Precisou, no inicío do século XXI, trazer lá do outro lado do mundo um "gás" novo, um lampejo de criatividade menos viciado. Quem conhece bastante a cultura japonesa de animação (que é forte e sempre foi levada à sério no Oriente) percebe que Matrix nem é tão revolucionária assim. Nada mais é que um videogame feito com atores reais, pra ser exato. É o live action apocalipse, como já se viu em Doom, Resident Evil, Akira e Evangelion. As idéias, longe de ser visionárias, eram cópias fiéis de teorias que há vinte anos habitam o cotidiano dos quadrinhos, da literatura, da música e das "mentes marginais" do Ocidente . Obviamente, são conceitos velhos, movidos à novíssima velocidade videoclíptica.
* Mais do que homenagem e influência, os irmãos Wachovisk, ao rechear sua obra com clichês nipônicos, mostraram o nó que há no pensamento ocidental de hoje. Debaixo de um teto de espetáculos de pão-e-circo, filmes-pipoca, encenações, desculpas esfarrapadas e hipocrisias generalizadas, o que se pode tirar de lição da trilogia é de que o Ocidente precisa de provocações. Inquietações. Talvez assim possamos elaborar novas perguntas, e caminhar por novas estradas. E isso não é de hoje -a cegueira dos gregos, romanos, ingleses e norte-americanos trouxe junto meio mundo, de argentinos a sul-africanos, de brasileiros a dinamarqueses,de franceses a venezuelanos. Um bando de bocós que não sabem caminhar com as próprias pernas- e que adoram brincar de siga-o-líder.
* A medicina ocidental de Hipocrátes atrofiou (vide o crescimento da medicina altenativa em todo o mundo); a música ocidental estagnou (a originalidade ficou para trás - hoje a tendência é repetir o que já foi feito) e o modo de distribuí-la também (as grandes gravadoras e editoras mundiais têm colhido sucessivos déficits desde a metade dos anos 90). O modo de vida ocidental também já passou da data de validade (o velho esquema papai-mamãe-filhinhos-emprego no Banco do Brasil), dando lugar a famílias formadas por pessoas sozinhas, casais homossexuais, divorciados vivendo com enteados e solteiros agregados. A Igreja Católica Apostólica Romana também passou a ser questionada e deixada de lado - como nunca antes.
* Na verdade, o pecado do homem ocidental foi ter estabelecido uma relação errônea com várias coisas - o dinheiro, a saúde, o corpo, as posses, as sensações. Tudo é muito mais complexo, elaborado e teorizado na cultura oriental. Tudo é mais espiritualizado, talvez. Não que essa "espiritualização" seja melhor ou pior. Mais é que, ao priorizar determinados aspectos de seu mundo, o homem ocidental tenha, por conta própria, feito o nó, enfiado a corda no próprio pescoço.
* Em suma, o homem ocidental plantou a própria ruína. Alimentou condições para que, em determinado momento da história (hoje, diriam alguns), o stress, a depressão, o individualismo, a perda da criatividade e da espontaneidade fossem epidemias globais.
* E isso ocorre, coincidentemente, num momento em que o Oriente sai de seu casulo. Auto-exilados por opção e afastados desde sempre, do meio do século passado pra cá que essa situação tem mudado.
* Enquanto ocidentais, estamos encurralados . Estamos envolvidos em práticas nocivas, auto-destrutivas que já não fazem mais sentido e podem ser pensadas. E analisadas. E modificadas. E, simultaneamente, assistimos a uma cultura tradicionalmente xenofóbica querendo estreitar relações - vemos pessoas querendo se envolver no mundo pop ocidental e podemos, de algum modo, aprender com a espiritualidade asiática e modo de vida deles.
* Que momento curioso estamos presenciando, não?
EDUARDO OLIVEIRA [2:20 PM]
"às vezes eu quero chorar
mas o dia nasce e eu esqueço
meus olhos se escondem onde explodem paixões
e tudo o que eu posso te dar
é solidão com vista para o mar
ou outra coisa pra lembrar"
(Alvin L.)
Marina Lima, "Eu não sei dançar"
* Tá bom, sei que já é meio tarde, mas vale a pena dar uma olhada nas músicas que, por um motivo ou outro, fizeram meu 2003 mais feliz. Aí estão elas:
Nacionais
1. Marcelo D2, "Qual é?", "Loadeando", "Batidas e Levadas", "RE:Batucada" e "C.B. Sangue Bom"
2. Los Hermanos, "Último Romance", "Samba a dois", "Além do que se vê" e "Conversa de botas batidas"
3. Forgotten Boys, "Cummon"
4. Titãs, "Provas de amor"
5. B. Negão, " A verdadeira dança do patinho" e "Dorobo" (com Sabotage)
6. Lulu Santos, "Melô do amor"
7. Autoramas, "Você", "Nada a ver" e "Ressaca Moral"
Internacionais
1. Outkast, "Humble Mumble", "B.O.B.", "Toilet Tisha" e "Hey Ya!"
2. The White Stripes, "Seven Nation Army"
3. The Dandy Warhols, "You were the last high"
4. The Darkness, "I believe in a thing called love" e "Love is just a feeling"
5. Justin Timberlake "Like a Love you"
6. Ben Harper, "With my own two hands" e "Sexual Healing"
7. Jane's Addiction, "Just Because", "The Price I Pay" e "Everybody's Friend"
8. Stereophonics, "Madam Helga" e "Maybe Tomorrow"
9. 50 Cent, "Many men"
10. Kings of Leon, "Molly's Chamber"
11. The Strokes, "Reptilia"
12. Interpol, "NYC"
13. The Smashing Pumpkins, "Cherub Rock", "Quiet", "Soma" e "Geek U.S.A."
* Entrou de tudo nessa lista, né? Só faltou Babado Novo (eca!!!)
EDUARDO OLIVEIRA [10:37 PM]
"Sei segredos de você
você não pode saber
sei lá, você se assusta
e eu fico só com a tv
você não se dá conta
é o último a saber
fico tonto de você
seus olhos pulam o muro
e vêm aqui me dizer
seus olhos mostram tudo de você"
(Suely Mesquita/ Jr. Tolstói/ Kátia B.)
Kátia B, "Último a saber"
* Que tipo de relação você tem com suas cicatrizes?
* Cicatrizes são pedacinhos, aqui e ali, do que você leva na cabeça - são histórias não contadas, segredinhos guardados entre você e Deus, coisa fina que só diz respeito a você e mais ninguém e que mudam, para mais ou para menos, sua cabeça. Muito do que você diz, fala e prega pode ser visto e conferido nas marcas que você tem pelo corpo.
* Um corte no queixo aqui, uma imensa marca no bíceps ali, uma vertical na sua coxa - uma profunda em seu pescoço, outra na altura do rim, talvez alguma no joelho...
* A gente pode amá-las, odiá-las, ser indiferentes, mas é inegável que elas escrevem porções da sua vida e, em conjunto, momentos significativos da sua vida.
* A felicidade de uma família se mede pelo número de cicatrizes na barriga da mãe e sucesso de um atleta se mede pelo número de marcas que ele tem nas mãos e pés.
* Às vezes tenho vontade de ser um cara tipo Frankestein, meio mix de Pinhead, Freddy Krueger e Darkman, cheio de pregos, parafusos, cortes, ataduras... Faria questão de dizer como consegui cada corte, por que algumas feridas não param de sangrar e a ansiedade que tive quando descobri que elas estariam ali para sempre. Vocês me imaginam tirando aquela gaze que sempre gruda no sangue coagulado?
* Que tipo de relação você tem com suas cicatrizes?
EDUARDO OLIVEIRA [2:55 AM]